20141214

nota encontrada no ipod

começa com um haicai:

estrada alonga
all along the express way
rio a noite toda

e segue:

imagens noturnas de dentro do ônibus, aquelas que conhecemos todos muito bem, as luzes passam através de uma cortina.

e daí? daí seguem-se imagens de pombas ou outros animais numa praia

a praia é toda
tola torra terra mar
earth can be sandy

ato 2:

uma pessoa bebe algo em algum lugar, sozinha ou acompanhada. Cai um raio. não, não cai um raio. nada cai, permanece como antes tudo que estava antes.

então, como solução: viragens, vermelho, azul, laranja, amarelo, púrpura.... como um anúncio de kebab em um país estrangeiro

e por estrangeiro se entende não-turco

O CONTRA-império turco, seu avesso completo (as coisas sem dúvida precisam de seus avessos, ou correm risco de se sentirem sozinhas)

ou seja: o protagonista passa a ser o (fantasma) do contraimpério

o avesso serve de adversário ou de complemento, mas é mais relevante o seguinte: o avesso pode (e é sempre o caso) servir de MOLDE.

ou seja: tudo que não é você (excluir-te totalmente do mundo) pode ser entendido como seu molde. preencha o vazio do antivocê com matéria humana e você terá novamente você.

isto é: se nos retirarmos do mundo (quando nos retirarmos), o que incomoda mais não é tanto nossa falta, mas o vazio que deixamos no molde. se ele não é preenchido, ele desaba em si mesmo e, do molde, não resta nem o espaço que costumávamos ocupar. o que resta do molde é o molde e algumas impurezas.

só se mantém o vazio do molde com esforço intenso, que consiste justamente em ocupá-lo com algo que pareça o corpo que ali habitava

memória, imagem, representação

no entanto... trata-se mais de reproduzir o molde (recriar artificialmente o que sustentava nossa presença) do que preservar o sujeito. o sujeito é mutável e morre, o molde se reconfigura ou cede.

A impressão de teus atos, a impressão de teu corpo, ou então o oposto, a pressão de tudo que te é alheio (teu antiteu) que te conforma, que te permite imprimir e impressionar algo ou alguém.

teu antiteu.

como materializar (representar) essa ideia? um sujeito e seu antissujeito e a forma como um e outro se colocam em situações contraditórias. necessariamente, um determina a existência do outro

como quando um corpo desloca determinado volume de água com seu corpo, a relação inevitável e instantânea entre dois corpos. moldar a água, ser moldado por ela. água-objeto, água-molde

água-molde em pedra dura
envolve tanto
que
torna a pedra areia.

20141113

27 de novembro:


"Tudo está se complicando. Estão acontecendo coisas horríveis. De noite acordo gritando. Sonho com uma mulher com cabeça de vaca. Seus olhos me fitam fixamente. Na realidade, com uma tristeza comovente."

(R. Bolaño, Detetives Selvagens, pag. 94)





20141105

lorota fotográfica, XVII

estático




dinâmico

20141022

diário de uma viagem de honra, primeiro dia, 1



viajo para bh para assistir à estreia do CIAO MIAO sozinho
o terminal 4 é triste, parece aeroporto de cidade do interior (cidade grande do interior)
as empadas terríveis me custam 7 reais cada
o trânsito foi muito bom e o transporte público não estava cheio
promessas de um futuro farto

20141008

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 23



ACABOU
(às vezes é preciso acelerar os processos para percebermos as diferenças, como o canto das baleias; reúna as horas passadas, veja a cena amorosa.)

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 22


QUASE

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 21


RETA FINAL

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 20


OUTRO AINDA

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 19


OUTRO

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 18


ESSE FOI DIFÍCIL

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 17


TOMEI CAFÉ AGORA VAI

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 16


OUTRO

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 15


+ 1 JA FORAM 15

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 14


BOM DIA

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 13


TA FICANDO BOM

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 12


JA FOI METADE

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 11


+1

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 10


LESMINHA CORUJAO DA MONTAGEM

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 9


AGORA PEGUEI RITMO

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 8


ESSE FOI

UMA DIÁRIA DA LESMINHA MONTADORA: HORA 7


ESSE FOI TAMBEM

20141006

Mais uma

Entre Salvador e Ilhéus, o ônibus parou em um monte de cidadezinhas fora da rota turística da Bahia. Uma mais bonitinha que a outra, mas a mais bonitinha, com certeza, foi aquela cidade cujo nome não descobri, em que todos os postes tiveram as lâmpadas cobertas com balões de seda (festa de São Pedro, disse alguém no ônibus). Tentei tirar uma foto melhor, mas o celular não me deixou.
 A gente parou na frente da agência da empresa de viagens, não lembro o nome, do lado de uma casa azul-e-branca com cara de delegacia (mais tarde, alguém diria que era isso, mesmo, uma delegacia). Um monte de gente embarcou ali, mas teve uma mulher que não embarcou.
 Eu vi ela primeiro dentro da agência, vi ela com duas crianças, meio assustada, e então um homem chegou, segurou o braço dela e foi falar com funcionários da agência. Eu achei que tinha visto errado, achei que ele só tinha passado por ela, achei que tava tudo bem.
 Não tava.
 Enquanto o tal homem falava com os funcionários, a mulher saiu de dentro do prédio com as crianças, fez um círculo artificialmente grande, contornando o sujeito. Ia entrando no ônibus quando ele percebeu (talvez estivesse bêbado), correu pra cima dela, puxou. Honestamente, não sei dizer se ele bateu nela, mas foi uma agressão, sem dúvida nenhuma. A mulher querendo fugir com as crianças, imagina só o que não deve ter levado ela a isso, todo mundo no ônibus criticando o cara, defendendo ela, mas ele lá, impedindo ela de entrar e ninguém fazendo nada. Eu não fazendo nada. Algumas pessoas riam, todo mundo assistia como se fosse uma novela.
 As crianças choravam e o cara tinha um facão. Ele não ~usou~ o facão, mas um cara anda por aí, impedindo sua mulher de fugir com duas crianças no primeiro ônibus que aparece (imagino que sem nem ter pra onde ir), com uma peixeira na cintura, e você faz o quê? Fiquei no ônibus, olhando e não fiz nada. Lembrei das minhas outras inércias, achei que devia ir lá, mas não fui. Fiquei assistindo, como se fosse uma novela.
 No fim, o sujeito dominou a mulher, forçou-lhe um beijo, manteve as crianças. O motorista deu a partida e o ônibus foi embora. A mulher ficou lá pra aguentar as consequências da fuga mal sucedida; só mais uma mulher em mais uma cidadezinha linda fora das rotas turísticas.
Como se fosse uma novela.