20140813

a verdade a verdade mesmo


 a verdade a verdade mesmo
a verdade ela mesma
é que isso tudo me chateia tanto
tanto tanto tanto
tanto
tanto tanto


uma chateação daquelas assim
que grudam no chiclete como cabelo
no óleo como algodão
na raiz como terra
na borboleta como flor
na serpente como pecado
na comparação infértil de um campo de algodão florido repleto de serpentes sem cabelo etc como eu

* * *


tenho fome e vontade de beber
tenho sede e vontade de comer
gostaria de não ter frio nos pés
gostaria também de agradecer aos meus pais e irmãos e irmãs que povoam este lindo e belo mundo



sem vocês não teria feito nada do que fiz
com vocês não faço nada

20140804

criamos um personagem, e agora?



2013
exercício:
hipótese sobre imagem de violência
uma garota do presente preocupada com o futuro

o que explodir? o que abraçar? o que defender?

2013
antigo exercício sobre a defesa do mundo

ela foge de quê? pra quê ela destrói as coisas?

mais importante:

ela busca um parceiro
o objetivo dela é conseguir +1 para a luta

é isso que o menino precisa aceitar ou negar

~agora está tudo tão claro~

20140730

criei um personagem, e agora?

muitos jovens literatos costumam me enviar perguntas sobre o que fazer com um personagem, uma vez concebido. questões éticas sobre os direitos ou vontades desse personagem parecem turvar um pouco a visão criativa de alguns colegas. outros se encontram simplesmente paralisados ante a infinitude de possibilidades para cada personagem, e acabam vendo sua estória definhar entre episódios cotidianos totalmente desinteressantes e situações absurdas que parecem ser a única maneira de empuxar a narrativa. nada disso, no entanto, importa; desde que seu personagem seja fera, BEM fera. no momento em que vivemos, o da pós-narrativa neoantidramática, pode-se dizer que toda a nossa energia criativa deve se concentrar na criação do personagem. então ele existe (como imagem, acima de tudo) e já não é mais preciso contar o que acontece com ele. ele de fato não precisa fazer nada - é claro, desde que ele cumpra sua função primordial: a de ser muito fera. com isso feito, basta a você, criador antenado com seu tempo e sua realidade, presentear o mundo com sua criação. espalhe seu personagem por aí! coloque-o em todos os lugares, absolutamente todos! ele merece viver por si só, longe do mofo da velha narrativa, longe de situações mal-ajambradas e descrições desnecessárias. deixe-o viver, e ele viverá. talvez ele morra, mas se isso acontecer é porque ele não é fera o suficiente (lembre-se: essa é a única coisa que importa). só assim seu sucesso será pleno.



20140718

aviso de notoriedade pública

a República está recebendo comentários misteriosos de um anônimo que gosta de se divertir muito.
as medidas cabíveis serão tomadas apenas quando nossos profissionais de plantão forem notificados de um possível final da diversão supra-citada. outras questões deverão ser tratadas de acordo com o protocolo costumeiro.

Att.
secretaria interna de avisos importantes d'A República




20140717

20140715

carta-aberta ao tempo ou lamento por heróis

"vozes sem dentes gargalham
são os ecos do falecido
sorriso esfolado disforme no ar.

Como dançar sobre pedra escavada?
A estrada feita de buracos navega rumo ao fundo
O ar tem gosto de parede. Não
posso sentar por um instante e o som das bombas.

Escrever com uma mão e martelar com a outra
as intermináveis escadas de aço
que se deitam sobre corpos de pó.
Eu olho e só vejo nuvens de areia.

As línguas açucaradas que sussurram jasmins
Jazigam quem pára pra ouvir.
Eu corro carregando centenas."

(o labirinto bloqueado cheio de cabeças tagarelas, todos andando de um lado pro outro trombando e tropeçando, a eternidade contida num instante de dor e choque, os olhos assustados de quem se vê no outro, um tatear desesperado à procura dos próprios pés, o medo de não ouvir os gritos de tanto que se ofega, o saber de que no coração do monstro corre sangue)

"Eu me desprego das metáforas perfurantes
eu sou grito e lança.
Quero respostas de quem é só esguio.

Quero pão, água, mapas.
Vocês não mais falarão
enquanto dor assim."

(a sina do herói em ser narrativa, eterno movimento que é só torpor, a sua boca só despeja os poemas dos outros, os seus brados têm outros mestres, os seus punhos são de marionete, choram por ti multidões enquanto corres em página fosca, chutando portas que darão em portas, gritando signos que são sua morte, rompendo nós que se reapertam, jamais capaz de olhar para o céu:

Ele plana
tão coeso
deslizante
no papel.

Procura chaves
não forjadas
e o fogo do céu não desceu.)

"Eu corro por todos
e o meu povo sou eu."

ele morre sozinho
sem nunca entender.

20140713

estado de vibração


20140708

A ARANHA:

(...)
A vida é dura, os corvos não esperam,
ouço os sinos da noite, vejo os funerais,
me sinto viúva, regresso à Inglaterra,
a aranha é o mais triste dos seres vivos.


[C. Drummond de Andrade - "Noite na Repartição"]



20140701

Re: Círculo de Fogo (crítica)

eu decidi escrever uma resposta decente explicando porque eu achei o "círculo de fogo" uma puta duma bosta. basicamente eu vi o filme num computador, com um som ruim e meio de mau humor. mesmo assim, acho que o filme poderia ser melhor apreciado nessas condições se ele não fosse tão lixo.

mas daí, como não tenho muito mais a dizer, resolvi compartilhar com vocês essa pintura do Jean Bellegambe, painel central do tríptico "Sangue de Cristo", porque achei muito pirante essa mistura de sangue e leite-de-peito que os anjos dão pros mortos beberem.


é isso galera, flw ;*

20140630

Círculo de Fogo (crítica)

Um ano(?) tendo se passado desde o lançamento, consolidou-se o consenso de que Círculo de Fogo é o melhor filme de todos os tempos. A constatação é intuitiva e dispensa maiores explicações, ocorrendo naturalmente a todos que tenham a felicidade de assistir à obra máxima de Del Toro e do Cinema-com-C-maiúsculo, mas nem por isso a crítica, especializada ou não, deixou de escrever prolificamente sobre a obra.
Muito se falou, por exemplo, em como o filme é multicultural, muito embora o protagonista seja americano, haja apenas um personagem negro e a personagem japonesa grite "PELA MINHA FAMÍLIA" enquanto ataca com uma espada. Falou-se em como é um filme importante em termos de representação da mulher (e, particularmente, da mulher asiática), embora haja apenas 3 mulheres em todo o elenco. Elogiou-se a inteligência visual de Círculo Fogo e a forma como o filme evita clichês e, em suma, o fato de ele ser a coisa mais linda que já passou por uma tela de cinema, mesmo sendo um filme de robôs lutando contra alienígenas que repete fórmulas batidas e não tenta ser mais do que é. Falou-se sobre como Mako é uma protagonista de verdade, e não uma desculpa para fan service; sobre como cada um dos personagens secundários, mesmo aqueles que nem têm falas no filme, tem mais carisma que todo o elenco da maioria dos filmes de ação; sobre como os dois protagonistas não se beijam no final. Eu já vi gente, inclusive, analisando a força que uma cena (aqui e aqui) de um segundo, quase imperceptível, que se passa ao fundo, teria como contestação aos paradigmas de gênero em um típico relacionamento hollywoodiano. Textos e mais textos, portanto, que embasariam o argumento de alguém que sustentasse o brilhantismo do filme, caso isso fosse realmente necessário (não é). 
O que importa, porém, é saber por que escreveu-se tanto sobre Círculo de Fogo. Por que fez-se tantas manobras, tanto contorcionismo, para classificar o filme como inclusivo, inteligente, único. E o motivo para isso é que, bem, o filme é bom. Ele é legal. Ele faz você querer gostar dele. 
Eu odeio cenas de ação, mas as cenas de ação de Círculo de Fogo são realmente legais. Pra começar, a câmera não fica balançando, de forma que é possível efetivamente entender o que está se passando, ao contrário do que costuma acontecer nesse tipo de cena, mas, além disso, elas passam muito bem a ideia de colossalidade que o filme propõe --- e isso é incrível. Os Jaegers e Kaijus parecem ter peso. Eles se mexem e você sente que algo gigantesco está se movendo. 
E, obviamente, eles são legais. Os Jaegers servem a um propósito na narrativa, é claro, o que também é elogiável, mas o que importa, de novo, é que eles são legais. Eles inspiram as pessoas a criarem histórias, a imaginarem seus próprios robôs. Círculo de Fogo é um prato cheio para o fandon, não apenas por tudo o que ele traz, mas principalmente por tudo o que ele sugere (como foram os 6 anos de invencibilidade do casal Kaidonovski?; como eram os outros Jaeger Mark 3?; ...). Círculo de Fogo é, por isso mesmo, a maior promessa de surgimento de um "clássico" dos últimos anos. É o filme que, na minha cabeça, tem a maior chance de sobreviver como ícone cult para as gerações futuras. 
Eu posso não saber, então, se o filme é ou não mais do que uma história de robôs gigantes. Talvez eu nem seja qualificado para dizer se é uma boa história de robôs gigantes. Se é uma homenagem à altura do gênero. Mas eu acho que é. Círculo de Fogo me faz querer achar isso.

20140625

pensar no mal


pensar no mal
com bondade
é uma maldade
ou só idiotice?

20140623


Eu queria morar em Brasília
onde os prédios são baixinhos
bem pertinhos
e queria morar em Paris
onde já teve uma revolução
e quem sabe não tem outra
Só queria morar longe da inércia
da inevitabilidade
da vida
onde ainda resistam os espíritos da terra
e se possa voar quando ninguém olha
Eu queria morar em Brasília
onde já teve uma revolução
e quem sabe não tem outra.