20140907

sobre: dois pontos no espaço



há um tempo, estive em frankfurt, muito brevemente, enquanto esperava o próximo voo para meu destino final

sem planejamento e nada, fui com meu amigo até o centro da cidade e me impressionou terrivelmente como as pessoas se sentavam no lado de fora dos restaurantes e bares e afins e conversavam animadamente e, ainda assim, não conseguíamos escutar nada. passávamos a poucos metros e não parecia que aquelas bocas emitissem som algum

isso foi frankfurt

me assombrou.

* * *

hoje fui almoçar no bar do jeová na esquina da benedito calixto a uns 120  210 metros de casa e ainda era bem cedo

comi (é muito caro de fim de semana que horror) e o lugar começou a encher e voltei preguiçosamente pra casa e vi que os outros lugares também estavam cheios, ou: as mesas externas estavam ocupadas e as pessoas falavam animadamente e se vestiam bem e sorriam e não dava pra ouvir o que eles falavam

só tinha um ruído baixo, um blablabla muito suave parecido com o que faz uma tevê bem baixinha pela madrugada, quando você acorda e tem alguém vendo tevê quase no mudo

que coisa.

20140902

a girl and a gun and again and so on


nada nesse mundo é mais rápido
que um tiro na boca do estômago



20140827

mais uma despedida

quando adolescente, fiz um teste de aptidão.
resultou que eu devia ser advogado, promotor, juiz (elevado senso de justiça, capacidade analítica de sistemas autorreferentes, tendência a culpar os outros apenas quando há um ganho explícito à vista).
olhei bem nos olhos do profissional que aplicou o teste (psicólogo?) e perguntei se ele era feliz.
ele sorriu, primeiro aquele sorriso "ah, espertinho", e depois um sorriso amplo, simpático e simpatético: "SIM, sou feliz".
"doutor, o negócio é seguinte: sou infeliz e desconfiado, além de tudo sou um mentiroso incontrolável. não acredito em você, direito é uma ideia terrível"
ele manteve o sorriso por algum tempo, embora o sorriso esvaziasse... as rugas iam desaparecendo de sua face, mas a boca continuava ali, semi-lua. "isso nada tem a ver. você seria um ótimo... bom, aqui diz que você também podia ser bailarino".
***
Isso já foi há uns 12 anos. Hoje vejo que o cara tava certo. Prestarei vestibular de novo neste ano. Em 2015, estarei na SanFran. Amém.

20140826

tudo o que você espera.



あなたは何をしたいですか? 
ワインやビール? 
どんなにそれが何であるか。 
私はあなたのためにここにいるよ。 

クレジットカードまたはデビット? 
さて、あなたに感謝。 
旅団は、天気の良い日を持っている。 
バイバイ。 

テーブルを清掃してください。 
私は同じだ。 
待機中。 

なに?タイプ... 
すべてを願っています。 
だから私は私:私はそれを得た。

poesia para rpg maker


20140813

a verdade a verdade mesmo


 a verdade a verdade mesmo
a verdade ela mesma
é que isso tudo me chateia tanto
tanto tanto tanto
tanto
tanto tanto


uma chateação daquelas assim
que grudam no chiclete como cabelo
no óleo como algodão
na raiz como terra
na borboleta como flor
na serpente como pecado
na comparação infértil de um campo de algodão florido repleto de serpentes sem cabelo etc como eu

* * *


tenho fome e vontade de beber
tenho sede e vontade de comer
gostaria de não ter frio nos pés
gostaria também de agradecer aos meus pais e irmãos e irmãs que povoam este lindo e belo mundo



sem vocês não teria feito nada do que fiz
com vocês não faço nada

20140804

criamos um personagem, e agora?



2013
exercício:
hipótese sobre imagem de violência
uma garota do presente preocupada com o futuro

o que explodir? o que abraçar? o que defender?

2013
antigo exercício sobre a defesa do mundo

ela foge de quê? pra quê ela destrói as coisas?

mais importante:

ela busca um parceiro
o objetivo dela é conseguir +1 para a luta

é isso que o menino precisa aceitar ou negar

~agora está tudo tão claro~

20140730

criei um personagem, e agora?

muitos jovens literatos costumam me enviar perguntas sobre o que fazer com um personagem, uma vez concebido. questões éticas sobre os direitos ou vontades desse personagem parecem turvar um pouco a visão criativa de alguns colegas. outros se encontram simplesmente paralisados ante a infinitude de possibilidades para cada personagem, e acabam vendo sua estória definhar entre episódios cotidianos totalmente desinteressantes e situações absurdas que parecem ser a única maneira de empuxar a narrativa. nada disso, no entanto, importa; desde que seu personagem seja fera, BEM fera. no momento em que vivemos, o da pós-narrativa neoantidramática, pode-se dizer que toda a nossa energia criativa deve se concentrar na criação do personagem. então ele existe (como imagem, acima de tudo) e já não é mais preciso contar o que acontece com ele. ele de fato não precisa fazer nada - é claro, desde que ele cumpra sua função primordial: a de ser muito fera. com isso feito, basta a você, criador antenado com seu tempo e sua realidade, presentear o mundo com sua criação. espalhe seu personagem por aí! coloque-o em todos os lugares, absolutamente todos! ele merece viver por si só, longe do mofo da velha narrativa, longe de situações mal-ajambradas e descrições desnecessárias. deixe-o viver, e ele viverá. talvez ele morra, mas se isso acontecer é porque ele não é fera o suficiente (lembre-se: essa é a única coisa que importa). só assim seu sucesso será pleno.



20140718

aviso de notoriedade pública

a República está recebendo comentários misteriosos de um anônimo que gosta de se divertir muito.
as medidas cabíveis serão tomadas apenas quando nossos profissionais de plantão forem notificados de um possível final da diversão supra-citada. outras questões deverão ser tratadas de acordo com o protocolo costumeiro.

Att.
secretaria interna de avisos importantes d'A República




20140717

20140715

carta-aberta ao tempo ou lamento por heróis

"vozes sem dentes gargalham
são os ecos do falecido
sorriso esfolado disforme no ar.

Como dançar sobre pedra escavada?
A estrada feita de buracos navega rumo ao fundo
O ar tem gosto de parede. Não
posso sentar por um instante e o som das bombas.

Escrever com uma mão e martelar com a outra
as intermináveis escadas de aço
que se deitam sobre corpos de pó.
Eu olho e só vejo nuvens de areia.

As línguas açucaradas que sussurram jasmins
Jazigam quem pára pra ouvir.
Eu corro carregando centenas."

(o labirinto bloqueado cheio de cabeças tagarelas, todos andando de um lado pro outro trombando e tropeçando, a eternidade contida num instante de dor e choque, os olhos assustados de quem se vê no outro, um tatear desesperado à procura dos próprios pés, o medo de não ouvir os gritos de tanto que se ofega, o saber de que no coração do monstro corre sangue)

"Eu me desprego das metáforas perfurantes
eu sou grito e lança.
Quero respostas de quem é só esguio.

Quero pão, água, mapas.
Vocês não mais falarão
enquanto dor assim."

(a sina do herói em ser narrativa, eterno movimento que é só torpor, a sua boca só despeja os poemas dos outros, os seus brados têm outros mestres, os seus punhos são de marionete, choram por ti multidões enquanto corres em página fosca, chutando portas que darão em portas, gritando signos que são sua morte, rompendo nós que se reapertam, jamais capaz de olhar para o céu:

Ele plana
tão coeso
deslizante
no papel.

Procura chaves
não forjadas
e o fogo do céu não desceu.)

"Eu corro por todos
e o meu povo sou eu."

ele morre sozinho
sem nunca entender.

20140713

estado de vibração


20140708

A ARANHA:

(...)
A vida é dura, os corvos não esperam,
ouço os sinos da noite, vejo os funerais,
me sinto viúva, regresso à Inglaterra,
a aranha é o mais triste dos seres vivos.


[C. Drummond de Andrade - "Noite na Repartição"]